Foi-se o tempo em que a literatura de cordel era manifestação cultural do povo nordestino. Hoje, o mercado do Sul do país a ver com maior interesse. Isso porque os temas também começaram a variar. Antes, é preciso explicar que esse tipo de poesia popular, vindo da Europa, encontrou no Nordeste o terreno propício para ilustrar seus enredos. Foi prolífera com poetas como Leandro Gomes de Barros e Manoel D’Álmeida Filho.
Já um tanto mais apurada e esteticamente romanceada, faz grande efeito na obra de Ariano Suassuna, José Lins do Rego e João Cabral de Melo Neto. Os folhetos ganharam esse nome por serem expostos ao povo amarrados em cordões, exibindo suas xilogravuras em pequenas lojas de mercados populares ou mesmo nas feiras.
Chegou ao Brasil no século XVIII, através dos portugueses. Aos poucos, foi se tornando cada vez mais popular. Seus enredos quase sempre tratavam de heróis que conquistavam com bravura o amor da pretendida, ainda que a contragosto dos pais da moça. Essas estórias com origem no Velho Mundo, se revelaram semelhantes a muitos relatos sertanejos que deram mote a obras da literatura de cordel, que no Brasil passou a ter suas próprias substâncias, até atingir o realismo vigente com as críticas sociais dando enredo às novas a atuais criações.
Vladimir Maiakóvski pressentiu, já no século XIX, a necessidade de despertar contra as injustiças sociais. O poeta russo não foi o primeiro a pensar nisso, mas é preferível citá-lo, ante os pensadores marxistas, por seu desinteresse em controlar as massas através de discursos demagógicos.
Quase um século e meio depois, o comodismo é o anestésico na veia da sociedade brasileira, que não foi a da análise de Maiakóvski. Pouco importa se, “na primeira noite eles colherem uma flor do jardim”, ou se na “segunda noite”, mais atrevidos, “pisarem as flores, matarem o nosso cão”; o fato é que, como disse o poeta, “não dizemos nada”.
Nada dizemos (só pelos cantos das paredes) quando vemos os assassinos de nossos filhos em liberdade. Nada protestamos quando mentes doentias atentam violentamente contra um feto na barriga de uma mãe, como foi o caso de Rafinha Bastos contra a gestante Vanessa Camargo. Pelo contrário, nosso povo acha que ele é humorista…
Nossos “heróis” são superstars e até patrocinam a cracolândia. Esses promotores recebem aplausos delirantes do público pelos palcos do Brasil. Depois, qualquer programinha exibe uma defesa desses artistas, exímios patrocinadores do crime, e o povo aceita comovido; afinal são “grandes artistas”, ainda que cantem meras justaposições de palavras.
Em contrapartida, o protecionismo exagerado proíbe pais de educarem os filhos. Com a aprovação da Lei da Palmada, fica proibido qualquer tipo de castigo físico a crianças. Óbvio que o diálogo é a melhor opção para ensinar. Mas resta saber como serão educados os filhos quando necessitarem de uma advertência mais rígida.
Já aceitamos vários tipos de interferência no seio familiar e cada vez mais, nossos jovens e adolescentes têm suas vidas ceifadas. Como entenderemos que palmada é crime, se atentar contra o pudor é piada pra divertir?
O que vale mais, as dores nossas de cada dia, ou os malabarismos midiáticos? O fato é que, cada vez mais rimos de nossas tragédias e, em alguns casos, até sentimos certo alívio por ela não ter ocorrido conosco ou com nossos familiares.
Neste país se faz piada com tudo. A lei do “milagre da ascensão econômica” tapou ainda mais a visão da sociedade. Será que é tão atraente pagar duplamente para ter um pouco de educação ou saúde?
Por que tanta tendência em amar, apegar-se ao facilitarismo, ao imediatismo, quando há falência dos direitos básicos? O modismo exacerbado, seja no consumismo ou nos humores sem graça, puxa a sociedade para o caos.
As promoções da mudança cultural nos deixam sem fôlego. Somos conformados ao extremo: tardios para pensar e precipitados para aplaudir o besteirol dos hipócritas. Os clichês decadentes da imoralidade do velho mundo caem nas mentes impúberes, e encaixam-se como uma luva, um veneno mortífero, exterminador da ética.
Na verdade, o nosso povo tem uma queda pela desordem. Não demora muito e, um dia, um breve dia, “o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer” coisa alguma. E aí surge a pergunta: quando seremos nós mesmos?
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